16/06/2012

DE CORAÇÃO E OLHOS LIVRES




 Quando recebi inesperadamente a notícia da morte do amigo: Carlão Reichenbach, fiquei em choque, pois tudo foi muito rápido, do nada aparece no encerramento do JN a notícia no momento em que tranquilamente estávamos em casa. Uma semana antes havíamos nos encontrado na SESSÃO COMODORO no CineSesc, e como de costume conversamos sobre filmes e aquela atmosfera de luminosa cinefilia estava mais radiante do que nunca. Falamos sobre a bela cópia de Bay of Blood que seria exibida em instantes, sobre o pessoal da RARO/NOCTURNO cujo trabalho de restauro dos filmes italianos raros ele comparou ao da Blue Underground de William Lustig e o papo girou em trono disso, de preservação e resgate da memória cinematográfica. Na apresentação do filme ele citou a importância do Cinema do Bava, o resgate da obra dele por cineastas cinéfilos como o Tarantino e citou algumas observações do nosso querido Carlos Thomaz Albornoz sobre Bay of Blood. O Carlão era assim, generoso e carinhoso com todos, um amigo fiel e antes de tudo um defensor do Cinema de Autor mais transgressivo. Essa Última Sessão de Cinema com o Carlão foi perfeita, um grande filme, amigos queridos e conversas sempre enriquecedoras... uma semana depois ele nos deixou e muitas lembranças vieram a tona entre minhas lágrimas e minhas imagens desses oito anos de Sessão Comodoro e de como o Carlão esteve no eixo de acontecimentos e atitudes de tantas pessoas ligadas á Sessão, que se conheceram na Sessão Comodoro.

Era uma noite de julho em 2004, quando soube que o Cineasta que eu já admirava desde quando vi e revi: FILME DEMÊNCIA nos anos 80: Carlos Reichenbach, iria fazer uma Sessão Dupla no CineSesc com os filmes: SANTA SANGRE de Jodorovski e CANNIBAL HOLOCAUST de Deodato. Cheguei cedo e já havia uma pequena fila, da qual eu era o primeiro nas sessões seguintes. Nessa primeira sessão superlotada quando vi o Carlão apresentando os filmes e falando sobre seu Blog, misturado com a atmosfera de cinefilia extrema que ele criou naquela noite, acabei criando meu primeiro Blog: MONDO PAURA que durou seis anos e mudou minha perspectiva sobre o Cinema. Muitos amigos criaram seus Blogs nesse período, a Revista Zingu surgiu através dos encontros dos amigos na Sessão Comodoro, muitos jovens realizadores mostraram seus curtas na sessão com o incentivo generoso do Carlão, sem esquecer da noite dos prêmios do Comodoro onde subi no palco e fui recebido pelo Carlão que conseguiu amenizar a vergonha de estar lá diante de tanta gente naquela noite que o Marcelo Miranda comentou essa semana que ainda não terminou. Foram muitas amizades surgidas, trocas de filmes, descobertas extraordinárias, sessões inesquecíveis onde autores desprezados pela crítica mais careta ganharam status de mestres, de poetas como Joe D’Amato, Lucio Fulci, Jesus Franco e tantos outros que o Carlão admirava e tinha os olhos livres de preconceitos quando fazia elogios rasgados ás suas obras. Talvez essa tenha sido a grande lição que aprendi com o Carlão: ter os olhos livres, ter o coração livre para se emocionar com um D’Amato por exemplo, que foi um Diretor pelo qual me apaixonei nesses últimos anos descobrindo sua obra singular... Lições foram muitas, era impressionante o silêncio fascinado de todos nós quando o Carlão falava sobre Cinema, absorvia cada palavra, cada análise, cada opinião...

Teria muita coisa a dizer, mas a emoção ainda me impede, com dificuldade escrevi esse texto, perdoem os amigos pelas linhas mal escritas, procurei ser sincero o suficiente. O que ficou foram os filmes, os amigos que cultivo até hoje e que nem sei se conheceria se não fossem as Sessões do Comodoro e principalmente as lições, as palavras, a generosidade e a grandeza e solidez do caráter desse grande Mestre que nos deixou e fará uma dolorosa falta...
Descanse em paz Carlão, que os Deuses do Cinema estejam com vc nesse momento...

                               FADE OUT.

4 comentários:

Matheus Trunk disse...

Belo texto Carrard! Além de cinéfilo e intelectual refinado, Carlão era um ser humano excelente. Muito generoso como você bem salientou. Realmente era aberto a cinematografias que muita gente não dava atenção.

Bússola do Terror disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bússola do Terror disse...

Não cheguei a conhecer ele. Mas, pelo que você e outros cinéfilos descreveram, vejo que foi uma grande perda.

Marcelo Carrard disse...

Fala Matheus, saudades. Pois é, tem pessoas que são realmente únicas, nunca ví o Carlão tratar mal ninguém, sempre era educado com todo mundo, de uma generosidade rara nos dias individualistas de hoje. Uma perda irreparável mesmo...

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