15/03/2012

IL DEMONIO: Uma Obra-Prima esquecida de Brunello Rondi.


Existem filmes que são verdadeiros exemplos de ourivesaria cinematográfica e que o tempo e a falta de preservação escondem dos olhos do grande público. Graças aos cinéfilos fanáticos de plantão e as edições restauradas em DVD e Blu Ray essas obras de rara beleza e composição resurgem para o deleite dos verdadeiros fãs do Cinema Italiano, o mais visceral e apaixonante que já existiu. Um desses exemplos em formato de filme é o arrebatador: IL DEMONIO, de 1963, dirigido pelo colaborador de Fellini: BRUNELLO RONDI, com Produção de LUCIANO MARTINO que também é co-autor do Roteiro. O filme é um retrato sensível com fortes tintas neorealistas, da vida atormentada de uma mulher rejeitada pelo amante em um pequeno povoado italiano onde é considerada pelos aldeões uma bruxa, possuída pelo demônio e indiretamente culpada por todas as tragédias locais. Incompreendida, julgada, reprimida, essa singular figura feminina, que está sempre de negro, é interpretada com maestria pela bela DALIAH LAVI, conhecida por sua atuação também marcante e ousada em LA FRUSTA E IL CORPO de Mestre MARIO BAVA.


A bela Direção de Fotografia em Preto e Branco constrói momentos de grande força diegética . Cada enquadramento, cada sequência onde a presença incômoda dessa fascinante mulher de negro que  provoca reações inesperadas de intenso amor e ódio dos aldeões e principalmente de seu amante: Antonio em um jogo de atração e repulsa que encaminha a trama para um desfecho trágico e ao mesmo tempo redentor. As imagens das foices, dos fogos, a presença dos figurantes locais, a figura das mulheres velhas, tudo póssui uma força descomunal que prende o espectador nesse filme de grandes momentos, com uma protagonista inesquecível. A breve sequência onde as mãos da protagonista tocam uma árvore é um exemplo desses pequenos momentos de maestria do Diretor. A sequências onde ela está supostamente possuída pelo demônio andando de barriga para cima se apoiando nas mãos e pés, remete a cena da versão do Diretor de O EXORCISTA onde a menina Reagan desce a escada nessa mesma e estranha posição. A onipresença da força clerical, o ser de espírito livre e selvagem dessa mulher que choca         a população hipócrita e provinciana daquela pequena cidade, acabam por construir um filme grandioso, de intensa poesia com belas locações e imagens que permanecem por um longo tempo nos sonhos de quem teve a sorte de saborear essa rara iguaria do Cinema Italiano intitulada: IL DEMONIO. Um filme da mesma estirpe dos clássicos de Pasolini, Fellini e Visconti.

4 comentários:

Hugo disse...

Uma cena similar – em que uma personagem, aparentemente possuída, dobra o corpo para trás – é mostrada no clássico polonês “Madre Joana dos Anjos”, de 1961 (e, se não me engano, aparece algo assim também em um filme de Buñuel). Antigamente esse fenômeno era denominado “arco histérico”: pessoas com algum desequilíbrio mental, quando sob intensa pressão psicológica, podem involuntariamente torcer o corpo devido ao extremo retesamento dos músculos. Por falar em Buñuel e lembrar dos surrealistas, Salvador Dalí tem um desenho chamado “Arco Histérico” que descreve exatamente isso.

Marcelo Carrard disse...

Obrigado pelas ótimas informações Hugo. Naquele filme: RUBY com a Piper Laurie também tem uma cena parecida.

Demonarch disse...

Essa obra prima já foi lancada em BD?

Marcelo Carrard disse...

Que eu saiba não foi lançada no Brasil. Creio q passou nos Cinemas daqui na época.

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