21/07/2011

VLEES/MEAT: O surpreendente filme vencedor do Prêmio de Melhor Direção no FANTASPOA 2011



Os filmes ganhadores dos principais prêmios na edição de 2011 do FANTASPOA tem em comum o fato de ultrapassarem os limites do Gênero Fantástico. São filmes adultos e com uma forte assinatura autoral que revelam jovens e promissores cineastas que nos deixam com vontade de ver seus próximos trabalhos. VLEES/MEAT, 2010, dirigido pela dupla: Victor Nieuwenhuijs e Maartje Seyferth, é um dos melhores filmes europeus que tive o prazer de descobrir nos últimos anos. Já na sua abertura vemos um recorte do corpo de várias pessoas nuas, em uma configuração das tensões entre a carne exposta no açougue e os corpos do casal de amantes que protagoniza o filme. Em composições que formam simétricas naturezas mortas, as carnes aparecem em cortes precisos, fatiadas ou penduradas nos ganchos do frigorífico. Em sua primeira metade o filme tem uma fotografia gélida que após uma ruptura, marcada por um monocromático vídeo, o filme em sua segunda parte ganha tensões cromáticas mais intensas, com um destaque especial para os tons de vermelho.


Composto de enquadramentos muito criativos em sua ordenação, o filme se torna uma surreal trama com toques de Film Noir e uma observação sobre os interditos subterrâneos da sexualidade humana. A dicotomia desejo/morte é muito bem trabalhada no filme. A seqüência final é de rarp virtuosismo onde o frigorífico se torna palco das bizarras expiações das personagens. Essa fusão de sexualidade mórbida e abjeção  encenada em um frigorífico me remeteu ao clássico filme argentino: CARNE, estrelado pela Musa do Cinema Exploitation Latino Americano: ISABEL SARLI, que em uma sequência antológica é violentada em meio as carcaças enormes de bois pendurados nos ganchos de um açougue, sem esquecer da abertura do filme de Jean Garret: A MULHER QUE INVENTOU O AMOR, e o CARNE de nosso querido: GASPAR NOÉ.

Outra imagem que sempre surge como clássico ícone da representação da carne como natureza morta é a tela barroca de Rembrandt: O Boi Esfolado, onde sutilmente o Mestre Holandês da Pintura coloca ao lado da carcaça do boi, a fantasmagórica figura de uma velha. Esse diálogo da tela de Rembrandt com o filme: VLEES/MEAT é bem colocado como uma leitura intertextual entre as interfaces do Cinema e da Pintura. A sexualidade oculta na sombra, a carne mutilada, fatiada, a morte como inevitável condução do protagonista ao abismo que tanta deseja... Um excelente trabalho de Direção dessa dupla que conseguiu imprimir uma autoria de grande poder subversivo, buscando um registro cinematográfico que está realmente muito acima de gêneros e rótulos previsíveis.

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