12/04/2011

AS FILHAS DO FOGO: Uma Fábula fantasmagórica de Walter Hugo Khouri




Nenhum cineasta brasileiro conseguiu mergulhar tão fundo nas profundezas da alma humana como Walter Hugo Khouri. A força implacável do Desejo, a angústia, a melancolia e a obsessão pela busca incesante do prazer que deságua em um oceano de solidão. Basicamente esse é o universo de Khouri e suas personagens inquietantes. Seu erotismo latente e de rica e sofisticada composição, algumas vezes        deu lugar a exploração singular dos temas fantásticos em filmes como O ANJO DA NOITE e principalmente em AS FILHAS DO FOGO, 1978. O universo feminino e seus mistérios desfilam pelo filme tendo o bosque como cenário de Fábula encapsulando suas personagens. Duas jovens mulheres se encontram em uma casa no campo. As memórias de uma delas se mesclam com a atmosfera sombria e ao mesmo tempo onírica do lugar. Ao reencontrar no bosque uma antiga amiga de sua mãe morta, Diana, a dona da casa, lhe faz uma visita ao lado de sua amante e descobrem que a misteriosa senhora        grava ao mesmo tempo sons da natureza e vozes de mortos.

O clima fantasmagórico se acentua a cada cena. As figuras masculinas são pontuais, coadjuvantes. O filme é dominado pelas mulheres em cena com fortes olhares cúmplices e de eterno desejo represado e latente. A sequência da audição das vozes dos mortos no fone de ouvido é um mistério, não sabemos o que a jovem mulher escuta, mas compartilhamos as suas visões onde a mãe morta de Diana fulmina com seu olhar de gélida beleza azulada, imagem que se destaca várias vezes no filme. O misterioso ritual antigo do fogo, o vinho ritualístico, a paixão como eterna angústia, tudo se mistura em um hipnótico registro cinematográfico singular, com uma ambientação européia, germânica. As sequências finais tem uma elaboração digna de um Mario Bava. O relato de Dagmar, a mulher que grava as vozes dos mortos é perturbador. Ela afirma que a tristeza, a solidão, a angústia sobrevivem à morte física, o que tornaria a humanidade algo ainda mais trágico... Um belíssimo exemplar do Cinema Fantástico Brasileiro, digno de figurar ao lado dos grandes momentos de Jean Garret e John Dôo, mas sempre com superior maestria, pois Khouri é único... Pena que sua obra não esteja restaurada e disponível em DVD. A cópia que eu tive acesso é de uma gravação do Made in Brazil da TV Bandeirantes, muito antiga...

2 comentários:

Laura disse...

Lindo texto, Marcelo! E você não acha interessante que, ao tratar do horror, o Khouri sempre escolha protagonistas mulheres? Tenho me perguntado sobre isso...

Bjs!

Laura

M.Carrard disse...

O Gênero Feminino no Cinema de Horror sempre aparece com maior intensidade dramática/estética, principalmente nos filmes italianos e franceses, que é a fonte que o Khouri explora mais qdo se aventura no Cinema Fantástico.

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